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A Mistagogia de Os Últimos Jedi

Entenda com uma metodologia teológica/religiosa tem a ver com a forma como os fatos são apresentados em Os Últimos Jedi.

Antes de mais nada, o que seria mistagogia?

Mistagogia é um termo teológico, católico, que tomo a licença para aplicar à nossa reflexão sobre Os Últimos Jedi, refere-se a um “método” de como as celebrações devem ser. A palavra ‘Mistagogia’ é de origem grega e composta de duas partes: ‘mist’ + ‘agogia’.  ‘Mist’ vem de ‘mistério’ e ‘agogia’ significa ‘conduzir’, ‘guiar’.  Podemos definir a palavra como: a ação de guiar, conduzir para dentro do mistério. Assim sendo, mistagogia significa conduzir (introduzir) alguém aos mistérios, levando-a à experimentá-los de modo a entender o que está sendo celebrado, sem que alguém fique comentado a todo momento dando explicações sobre o que fazer o e o sentido de cada coisa. Valoriza a experiência particular e gradativa. É sobre essa perspectiva  do filme que vamos refletir aqui.

São comuns comentários como: “o filme não explica”, “não entendi” , “o filme é fraco”, e por aí vai. Todos tem o direito de gostar ou não, mas o filme tem uma proposta de significado, a forma como é apresentado não convence a todos, considerando ser um molde diferente de tudo que já foi feito.

Em se tratando de Star Wars ser uma narrativa mitológica, sempre haverão partes que exigem reflexão. É preciso ter uma abertura para um pensamento filosófico, que parte do princípio da inquietação diante do desconhecido, e a moção em questionar e entender as facetas do que foi apresentado. Em poucas palavras, seria uma forma de apresentar as coisas, que tende a fazer com que cada um conduza a própria experiência, com poucas pistas, para que o próprio indivíduo, em vários pontos de Os Últimos Jedi, é isso que é feito.

Vamos tratar disso aqui, analisando alguns pontos.  A ideia aqui não seria subverter opiniões, apenas apresentar uma perspectiva.

Não interprete ao pé da letra

Interpretações ao pé da letra, raramente são o objetivo de quem cria algo, seja o conteúdo que for. Em uma obra que segue uma linha “mistagógica” o sentido das coisas sempre estará para além das linhas de fala dos personagens, em uma abrangência maior, seja na trilha sonora, na atuação, nos extras, nos conteúdos que agregam ao filme, como novelização e HQ, e até mesmo no próprio roteiro.

Ainda que o trabalho de levar o expectador à experiência proposta seja grande, a possibilidade de interpretações é infinita. Como é de se esperar, as pessoas tem percepções diferentes, em razão disso, é necessário a abertura para refletir, ver o lado do outro, e também partilhar o próprio sem imposições.

Um exemplo para finalizar, seria uma das frases que Yoda fala para o Luke, onde ele diz: -“Skywalker, continua olhando para o horizonte”, levando isso ao pé da letra, perderia todo o sentido de preocupação maior com o futuro em detrimento à preocupação com o aqui e agora.

Partes Mistagógicas do Filme

Vou tratar aqui de uma análise de três cenas, para não estender demais. Analisaremos as seguintes cenas :

-Sabre ao penhasco
-A visão da Rey na caverna sombria
-O Sacrifício de Luke

Sabre ao penhasco

É um momento que criou expectativas altas. O primeiro contato entre Luke e Rey, o sabre dos Skywalkers apresentados ao Mestre Jedi como uma súplica. A expectativa talvez fosse algo mais místico. Após pegar o sabre da mão de Rey e observá-lo brevemente, Luke o joga penhasco abaixo. Isso, para alguns, pode soar como desrespeitoso, jogar para longe algo sagrado ligado à família e ao seu legado. Mas o sentido disso está ligado com uma cena bem semelhante:


Em O Retorno de Jedi, Luke joga o sabre negando o lado sombrio, em Os Últimos Jedi, Luke joga o sabre renunciando os Jedi e seu legado de fracasso e arrogância, como ele mesmo diz.

A visão da Rey na Caverna Sombria

Aqui vemos a Rey, num momento em que ela cede ao lado sombrio, por interesses pessoais, uma vez que sentiu que a caverna teria as respostas que precisava. A cena em si parece não ter muito sentido, ela entra, se depara com um tipo de espelho e de repente temos a Rey presa numa looping sem fim de si mesma. O que temos de mistagógico aqui, seria o contraste com a visão que a Rey tem ao tocar o sabre em O Despertar da Força, aqui não nada é explicado, para que quem vê se questione a respeito do sentido disso.


Particulamente, penso que a Força deu uma lição na Rey, ela queria ver os pais, queria respostas, e se entregou ao meio mais fácil. Ela se sentiu perdida, confusa, e o resultado após fugir de si mesma (nas repetições), ela não queria olhar para si própria e sim ver os pais, sendo eles a resposta para a insegurança de sua própria identidade, mas o resultado final é ela se  depararando com o próprio reflexo.

Talvez o sentido seja esse, buscar as respostas sobre si mesma, sem se conhecer, sem olhar para si, não funciona, a necessidade do autoconhecimento, é um reflexo da afirmação que ela faz ao Luke no templo, porém em pergunta, “qual o meu lugar no meio de tudo isso?”

O Sacrifício de Luke

“A rebelião renasce hoje. A guerra está apenas começando e eu não serei o último Jedi.”

A interpretação de modo superficial, resume tudo em: “ele enganou o Kylo para que o pequeno grupo sobrevivesse”, o que não está errado, mas vai muito além disso.

Ao jogar o seu sabre no início do filme, Luke estava negando o legado sombrio dos Skywalkers, afim queria evitar o desequilíbrio que o conlfito entre luz e trevas traria. Após ter se aberto novamente à Força, Luke encontra paz e propósito.

Enfim Luke toma a decisão sobre legado que ele ia deixar, ele sabia que era tido como uma lenda, e não gostava muito dessa visão, mas pelo visto as palabras da Rey “talvez a galáxia precise de uma lenda” tenha feito ele refletir, a ponto de ele decidir aparecer depois de tanto tempo, de uma forma que eternezaria ainda mais a lenda, e acima de tudo traria esperança para a galáxia.


Entre os planos do Snoke, estavam: acabar com a esperança na galáxia e destruir o Último Jedi, com apenas um ato, Luke desmoronou todo o plano do Snoke/Primeira Ordem.

-Trouxe esperança, de modo que até mesmo as criancas de Canto Bight ficaram sabendo, toda a galáxia ficou sabendo que Luke se colocou diante de toda a Primeira Ordem, que não foi atingido por nenhum tiro, e que ainda desviou de todos ataques do Kylo Ren.

-Além disso, como ele mesmo disse, ele não será o último Jedi.


Outro detalhe interessante, quando Luke usa o Dopplegänger, eleescolhe justamente o sabre azul, o mesmo que ele jogou negando o legado sombrio dos Skywalker. Agora ele o reassume, assumindo seu papel na ascenção dos Skywalkers.

É bom ou ruim que o filme seja mistagógico?

Tudo tem seus prós e contras, com equilíbrio tudo fica melhor. Um filme onde as coisas exigam a reflexão de quem asssite é bom, mas isso deve ser intercalado com partes em que existam explicações “mastigadas”. A mistagogia não acontece sem referências que conduzam à experiência pessoal, o bom é que se tenham referências que ajudem nas interpretações, elementos que por vezes fazem falta em alguns filmes, em Os Últimos Jedi há muitas coisas que parecem não ter sentido, ou ter um sentido raso, que para aqueles abertos para refletir de modo mais profundo, tem muito sentido.

Cícero de Jesus

23 anos, fã de Star Wars desde os 5. Apaixonado por todos conteúdos da saga e nerdices em geral, mas não apenas isso. Meu personagem favorito é Luke Skywalker, considernando que moro em Tremembé, idenfico-me com o personagem em seu exílio. Gosto de escrever/resenhar os conteúdos que vejo/leio em Star Wars, compartilhar opniões é algo que me agrada.